
(imagem cortesia do site MonacoYey.com)
O CEO da Oracle, Lawrence J. Ellison tem um iate cujo nome é “Rising Sun”. Não tem nenhuma relação com a empresa que ele comprou, a Sun Microsystems. O pequeno brinquedo do Mr. Ellison tem apenas 138 metros (vide foto acima, ancorado na costa francesa), e é neste barquinho que deve ter se ocorrido o diálogo abaixo:
[L.Ellison] – (falando para seus diretores) Vocês viram que a comissão antitruste da união européia quer barrar a compra da Sun?
[L.Ellison] – (continua…) Um absurdo! Tudo porque eles acham que, como somos os líderes no mercado de banco de dados, vamos descontinuar o banco de dados open-source da Sun, o MySQL… …Absurdo! Quem aqueles velhinhos europeus pensam que são?!
[L.Ellison] – (continua…) Paguei US$ 7,4 bilhões pela Sun, a comissão dos EUA já aprovou o negócio e agora vem estes representantes do velho mundo e não concordam…
[L.Ellison] – (pega seu copo de whisky, sai para pegar um pouco da brisa marítima e volta, gritando) Onde vocês estavam que deixaram isto acontecer?
O diálogo monólogo acima é fictício (apesar de poder ter facilmente ocorrido), mas ilustra um aspecto importante que muitos gestores esquecem: a cultura pode fazer faz toda diferença e foi o que pesou na decisão européia.
“É a cultura, estúpido!”
A famosa frase “It’s the economy, stupid!” foi utilizada pelo “marketeiro” do ex-presidente B.Clinton, James Carville, para convencer o povo americano a votar a favor de Clinton e tirar o partido do Bush (pai) da presidência dos EUA. Deu certo.
Da mesma forma, a única forma dos diretores da Oracle explicarem para o chefe o que levou a decisão da Europa barrar o processo de compra: “É a cultura, estúpido!”
Foi exatamente o que fez este excelente artigo do NYTimes.com. A forma como o velho mundo pensa, a sua cultura de baixo risco, tudo isto são aspectos que explicam uma certa “birra” que leva a União Européia a barrar tantos negócios das megacorporações de software americanas. Os exemplos são a Intel e os casos recorrentes da Microsoft .
Como a Europa enxerga o mundo open-source?
Como uma tábua de salvação de sua indústria de software contra a dominação das gigantes americanas (exceção honrosa à alemã SAP).
Os europeus valorizam, muito mais do que os americanos, a competitividade que os produtos open-source trazem para o mercado. E mais, eles (europeus) são muito conservadores, menos avesso a riscos que os americanos (vide Hofstede e suas dimensões culturais).
Por conta disto, enquanto a comisão americana aprovou rapidamente o negócio da Oracle com a Sun, porque não existe nenhuma evidência que a empresa de Ellison vá descontinuar o MySQL, a comissão européia atua de forma preventiva: “pode ser que ocorra ou não, na dúvida, vamos barrar o processo”, pensaram os europeus.
Sem entender esta variável fica mais difícil explicar a recusa dos europeus em dar a “luz verde” na aquisição da Sun.
Qual a mensagem afinal?
Precisamos enxergar além dos nossos bits&bytes para entender o que ocorre em qualquer movimento de fusão, aquisição, consolidação do mercado.
A mensagem que eu quero passar é que se não entendermos este aspecto cultural, não vamos compreender certas atitudes das empresas onde trabalhamos ou negociamos. O caso da Oracle serve apenas para ilustrar o peso da cultura nas decisões estratégicas. Será que a Oracle avaliou esta variável antes de comprar a Sun?
Todo movimento de consolidação, fusão ou aquisição (vide Itau-Unibanco, Oi-BrT, Sadia-Perdigão, Banco do Brasil-Nossa Caixa etc), passa por uma grande discussão sobre arquitetura dos sistemas, como eles serão integrados.
Você como gestor de TI, analista de integração, arquiteto etc, estará no meio deste processo. Tenha consciência que muitas decisões não tem apenas o peso puramente técnico. Elas tem a ver a cultura da empresa na qual a pessoa foi formada. É melhor você estar preparado.
Pena que não possamos ficar com esta preocupação olhando para a cidade de Cannes, na França, dentro de um iate como este acima.
Davi